6 de abril de 2011

Haniel Long escreveu: «Muito do que é melhor em nós está ligado no nosso amor pela família, que continua a ser a medida de nossa estabilidade porque mede o nosso sentimento de lealdade

31 de março de 2011

Descartes

Para Descartes, o sujeito "é uma coisa que pensa, quer dizer, que duvida, que afirma, que nega, que conhece poucas coisas, que ignora muitas, que quer, que não quer, que também imagina e que sente".

30 de março de 2011

Obra de Camilo em leilão no Porto

«Está a decorrer no Porto um leilão com obras de Camilo Castelo Branco. Os livros fazem parte de uma biblioteca particular com cerca de dois mil títulos que está à venda até ao próximo sábado, no salão nobre da Junta de Freguesia do Bonfim. Apesar de o leilão decorrer até ao próximo sábado, os lotes relativos à obra camiliana começaram a ser vendidos esta terça-feira, ficando alguns disponíveis ainda para a sessão desta quarta-feira, marcada para as 21 horas. Pela sua raridade, títulos como "Horas de lucta" e "A infanta capellista" serão dos mais cobiçados na iniciativa, promovida pela Livraria Manuel Ferreira. Chegando quase aos 300 livros, a biblioteca camiliana destaca-se neste leilão de quase duas mil obras. A colecção pertence aos herdeiros de José de Sá Monteiro de Frias, destacada figura de Sintra que foi cliente da Livraria Manuel Ferreira durante mais de 40 anos. (...) Herculano Ferreira, responsável pelo leilão, refere que o mundo de Camilo é muito peculiar, sublinhando que o romancista "tem um lugar ímpar entre todos, no mundo da bibliofilia". Não só pela obra extensa que deixou, mas também por os seus livros serem de "produção rústica", com capas muito frágeis. Esse facto levava os proprietários a encadernar os livros, para melhor os preservarem. "Hoje em dia, é raro encontrar o original, com a capa de brochura", diz, a propósito. A isso podemos somar as edições raras e tiragens pequenas, também usuais no autor. Referindo que "ninguém tem uma biblioteca camiliana completa", aquele responsável reconhece, no entanto, que "há um conhecimento à volta de Camilo muito apurado". E o coleccionismo não pára de surpreender o livreiro, que conhece um exemplar das poesias "A Laura Geordano" em seda. Além das duas obras atrás referidas, vão a leilão nesta quarta-feira, também de Camilo, títulos como "Memorias do carcere", que escreveu sobre o tempo passado na cadeia da Relação, ou o opúsculo "Maria! Não me mates, que sou tua mãi!". (...)
Base de licitação mais elevada

O título que tem a base de licitação mais elevada é "Horas de lucta", no valor de 1500 euros. É uma das mais raras, cobiçadas e valiosas peças de toda a bibliografia camiliana. Só se imprimiram 32 exemplares, sendo este lote em particular o que foi dedicado a Ana Plácido, que viria a ser mulher de Camilo.
Com uma base de licitação de 1000 euros parte para leilão o lote correspondente ao livro "A infanta capellista", uma primeira edição que vai, por certo, merecer também renhida disputa entre os coleccionadores que se apresentem na Junta de Freguesia do Bonfim. http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=1818834&page=1

29 de março de 2011

Man On Wire

"Homem no Arame" é um olhar à ousada mas ilegal proeza de Philippe Petit efectuada em 1974... a sua corajosa mas perigosa passagem a pé sob um arame suspenso no ar, a 410 metros de altura, entre as Torres Gémeas do World Trade Center de Nova Iorque. Acontecimento esse que alguns consideraram ter sido "O Crime Artístico do Século".

24 de março de 2011

O professor primário

«O meu pai era tecelão, a minha mãe ocupava-se da casa e dos campos com os meus avós.
Sempre considerei a profissão de professor a mais bela das profissões. Certamente a influência da minha família foi preponderante nesta escolha: 1º, porque os meus pais eram pouco instruídos (e os meus avós analfabetos), falavam-me sempre dos benefícios da instrução [...]; 2º, tal como os meus pais, considerava invejável a profissão de professor, porque o ordenado era seguro e me parecia suficiente, enquanto na nossa casa debatíamo-nos com poucos ganhos; 3º, ainda, pensava sobretudo na dureza dos trabalhos rurais no Verão, no meu pai puxando sem descanso a lançadeira num canto da cavalariça, a tecer os panos, de tal modo que passei a considerar o professor um privilegiado e a sua profissão pouco fatigante (mudei de opinião depois!).»
Testemunho citado em J. Ozouf, 1993 - Nous, Les Maîtres d'École, Paris, Gallimard

22 de março de 2011

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

Escritor, poeta e ensaísta português, natural de Mexilhoeira Grande, Portimão.

21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

«Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama o meu coração
A tua incerteza voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!»
Fernando Pessoa

E ainda:
- Dia Mundial da Árvore/Floresta;
- Primavera.

19 de março de 2011

Almada Negreiros

Biografia
Almada Negreiros nasceu em São Tomé e Principie a 7 de Abril de 1893.
Foi um dos fundadores da revista Orpheu em 1915, onde conviveu com Fernando Pessoa.
O pai de Almada inscreveu-o no Colégio de Campolide, onde estudou de 1900 a 1910.
Em 1911 passou ainda pelo liceu de Coimbra e só em 1912 ingressa na Escola Nacional de Belas Artes, em Lisboa. Vai distinguir-se, essencialmente, pela caricatura.
Em 1919, insatisfeito com os seus estudos em Portugal, foi para Paris estudar pintura e onde apreende novidades plásticas e literárias. Viveu em Espanha entre 1927 e 1932.
Além da Literatura e da Pintura a óleo, Almada desenvolveu ainda composições coreográficas para ballet.
Ele trabalhou em tapeçaria, gravura, pintura mural, caricatura, mosaico, azulejo e vitral.
As suas obras mais conhecidas são: Saltimbancos, K4 O Quadrado Azul, A Engomadeira, A Invenção do Dia Claro e Nome de Guerra. Escreveu ainda textos doutrinários, peças de teatro e organizou conferências.
Almada Negreiros, morreu em 14 de Junho de 1970, de falha cardíaca, no mesmo quarto do Hospital de São Luís dos Franceses, onde também tinha morrido Fernando Pessoa.

Características da sua Arte
Almada Negreiros tinha duas orientações de busca e criação, que foram a beleza e a sabedoria. Para ele a beleza não podia ser ignorante e idiota, assim como a beleza não podia ser feia e triste.
Ele foi praticante de uma arte elaborada que prevêem de uma aprendizagem que não acaba nas escolas de arte. Almada teve como tema principal o número, a geometria e os seus significados.
Ele revela-se um neopitagórico, sendo este o seu lado a fonte mais profunda da sua inspiração e criatividade.

Pintura
A pintura de Almada Negreiros é hoje unanimemente reconhecida como o verdadeiro símbolo da arte moderna portuguesa. O génio e a obra de Almada foram fruto de uma evolução influenciada quer pelos movimentos contemporâneos quer pelo contacto com a arte e sabedoria ancestrais.
Almada Negreiros pintou variadas obras em óleo sobre tela, mas os mais famosos são sem dúvida, os que se encontram na Colecção Permanente do Centro de Arte Moderna e na Fundação Calouste Gulbenkian.

(http://www.eccn.edu.pt/alunos/joanaq_elisa/almada_negreiros.htm)

A Flor
Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se
-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro
canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de
linhas. Umas numa direcção , outras noutras;
umas mais carregadas, outras mais leves; umas
mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis
tanta força em certas linhas que o papel quase que
não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do
lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às
pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com
as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da
criança, da cabeça para o coração e do coração
para a cabeça, à procura das linhas com que se faz
uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas
linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos
seus lugares, mas são aquelas as linhas com que
Deus faz uma flor!
Almada Negreiros

18 de março de 2011

Mais uma vez, TNSJ

Exactamente Antunes
“Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.” Com Exactamente Antunes, é como se Jacinto Lucas Pires – concitado por Nuno Carinhas – respondesse ao apelo de Almada Negreiros, desencaminhando-lhe Nome de Guerra para a cena. Obra de uma prodigiosa frescura e ingenuidade, o romance instala-nos no percurso (ou carrossel) iniciático de Antunes, provinciano sacudido pelos acasos da sorte na grande cidade, que, entre o clube nocturno e o quarto de hotel, acumula a experiência bastante para concluir que… nenhum saber resulta da acumulação de experiência. Partilhando com Almada o prazer dos paradoxos e a lúdica reinvenção da linguagem, Jacinto Lucas Pires explora a teatralidade que informa este “espectáculo de um homem em luta livre consigo mesmo”, ora pirandellizando-o – por lá irrompe, em futurista fato-macaco, o Autor em busca da sua personagem –, ora brechtianizando-o, ao projectar em cena títulos de capítulos e outras sentenças, irónicas e desconcertantes. Nuno Carinhas assume, enquanto cenógrafo e figurinista, o papel de tridimensionar esta “obra-prima de desenho”, como lhe chamou David Mourão-Ferreira. A encenação, partilha-a com Cristina Carvalhal, num gesto de celebração do génio de Almada, para quem o teatro é “o escaparate de todas as artes”.

de
Jacinto Lucas Pires
a partir de
"Nome de Guerra", de Almada Negreiros
encenação
Cristina Carvalhal, Nuno Carinhas
cenografia e figurinos
Nuno Carinhas
desenho de luz
Nuno Meira
desenho de som
Francisco Leal
preparação vocal e elocução
João Henriques
interpretação
Joana Carvalho, João Castro, Jorge Mota, José Eduardo Silva, Lígia Roque, Mané Carvalho, Paulo Freixinho, Paulo Moura Lopes
produção
TNSJ
classificação etária
M/12 anos

2 de março de 2011

«Nunca acreditei que a liberdade do homem consiste em não fazer o que quer, mas sim em nunca fazer o que não quer, e foi essa liberdade que sempre reclamei, que muitas vezes conservei, e me tornou mais escandaloso aos olhos dos meus contemporâneos. Porque eles, activos, inquietos, ambiciosos, detestando a liberdade nos outros e não a querendo para si próprios, desde que por vezes façam a sua vontade, ou melhor, desde que dominem a de outrem, obrigam-se durante toda a sua vida a fazer o que lhes repugna, e não descuram todo e qualquer servilismo que lhes permita dominar.»
Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'


«Viver é não saber que se vive»
Florbela Espanca

14 de fevereiro de 2011

O dia

"Passa o dia contigo
Não deixes que te desviem
Um poema emerge tão jovem tão antigo
que nem sabes desde quando em ti vivia"
Sophia de Mello Breyner Andresen

9 de fevereiro de 2011

Frei Luís de Sousa

"Maria (abrindo a mão e deixando-as cair no regaço da mãe) - Murchou tudo... tudo estragado da calma... Estas são papoulas que fazem dormir; colhi-as para as meter debaixo do meu cabeçal esta noite; quero-a dormir de um sono, não quero sonhar, que me faz ver cousas... lindas às vezes, mas tão extraordinárias e confusas...
Madalena - Sonhar, sonhas tu acordada, filha! Que, olha, Maria, imaginar é sonhar, e Deus pôs-nos neste mundo para velar e trabalhar, com o pensamento sempre n'ele, sim, mas sem nos estranharmos a estas cousas da vida que nos cercam, a estas necessidades que nos impõe o estado, a condição em que nascemos. Vês tu, Maria, tu és a nossa única filha, todas as esperanças de teu pai são em ti (...)"

Amor de Perdição

Cara menina Coração:
Desde os meus quinze anos que prometi o meu coração a um rapaz meu vizinho. Amo e sou amada por ele, contudo as nossas famílias estão desavindas. O meu pai não me compreende e quer que eu me case com meu primo Baltazar. Diz-me ele que com o tempo vou amá-lo. O meu pai até me disse: « minha querida filha, que a violência dum pai é sempre amor. ». Ontem, meu querido pai disse-me:
« - Hás de casar! - Quero que cases! Quero!... Quando não, amaldiçoada serás para sempre, Teresa! Morrerás num convento! Esta casa irá para teu primo! Nenhum infame há de aqui pôr pé nas alcatifas de meus avós. Se és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar apelidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miserável que tu amas! Maldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de Sol.»
Cara menina Paixão, o que devo fazer?
Teresa


- Como se fosse escrito na época em que decorre:
Olá menina Teresa, estou aqui para te ajudar nesse teu momento difícil de escolha.
Sei que deves estar confusa, mas aconselho-te a seguir o que o teu pai disse. Sabes que se não fizeres isso terás as piores consequências.
É melhor esqueceres a tua paixão pelo Simão, e aceitares a ideia de te casares com o teu primo Baltazar. Ele dar-te-á felicidade e a paz que precisas. Podes pensar o contrário mas daqui a algum tempo vais dar-me razão.
És muito nova para estares a entrar em batalhas com o teu pai, tens de compreender que os homens mandam sempre em nós, pois eles nasceram com esse poder. Não te esqueças que o Simão é da família inimiga, por isso irias prejudicar a tua família perante a sociedade, lembra-te que tens uma reputação a manter. Sabes o que as pessoas do povo iriam falar? De ti, da tua história de amor com o Simão e isso não pode acontecer, sabes que o teu pai não ia gostar.
Espero que não tomes as decisões erradas e que me contes o que vais decidir, pensa no que te disse.
Beijinhos,
Menina Coração

- Como se fosse escrito nos dias de hoje:
Olá Teresa, que notícias tão más que me estás a contar…
Deves estar numa situação complicada, pois estás entre dois amores, o Simão e o teu pai. Sabes que respeito muita a relação com os nossos parentes, pois eles deram-nos toda a nossa educação, toda a nosso vida é por eles. Mas, estás a chegar à situação em precisas de “voar”, como todas as jovens passam por isso. Aconselho-te a falar com o teu pai, para ele perceber que tu é que escolhes o teu verdadeiro amor, que não é pelo teu primo Baltasar. Fala sobre o Simão, fala como ele é bom para contigo, diz que a história da família inimiga já passou, já foi há muito tempo e este acontecimento pode originar um novo começo de paz entre as famílias.
Se o teu pai não ceder, acho que deves ir por outro caminho, o mais dificil. Tenta arranjar um voo barato para um país longe com o Simão, sim, estou a dizer para fugires de casa e recomeçares a tua vida noutro sítio, depois podes regressar e podes ter um pai mais calmo e que tenha percebido que a tua cara metade é o Simão.
Não faças nada que te arrependas no futuro e nunca te esqueças que tu é que comandas a tua vida, as pessoas que estão à tua volta, só te amparam quando estás a precisar de uma ajuda, como é a minha função.
Beijinhos, Menina Coração


(trabalho para a disciplina: Literatura Portuguesa)

3 de fevereiro de 2011

Nos dias tristes...

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

(Filipa Leal, in "A Cidade Líquida e Outras Texturas"/ Deriva Editores)

2 de fevereiro de 2011

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, 1913 – 1980) formou-se em Direito, em 1933. No mesmo ano publicou O Caminho para a Distância, seu primeiro livro de poesia. Ainda na década de 1930, são lançados Forma e Exegese, Ariana, a Mulher e Novos Poemas.

Em 1938 viajou para a Inglaterra, para estudar Língua e Literatura Inglesa. De volta ao Brasil, ingressou na carreira diplomática, serviu nos Estados Unidos, na França e no Uruguai. Em 1956 iniciou parceria com Tom Jobim, que fez as músicas para sua peça Orfeu da Conceição. Publicou, em 1957, o Livro de Sonetos. Em 1958 foi lançado o LP Canção do Amor Demais, que inclui a música Chega de Saudade, composta por ele e Tom Jobim, marco do movimento da Bossa Nova. Nas décadas seguintes ele participaria no movimento com diversas parcerias.
Em 1965 ganhou primeiro e segundo lugares no Festival de Música Popular da TV Excelsior, com as canções Arrastão, e Canção do Amor que não Vem. Vinícius de Moraes, pertencente à segunda geração do Modernismo, é um dos poetas mais populares da Literatura Brasileira. Suas canções alcançaram grande êxito de público, como Garota de Ipanema, a música brasileira mais executada no mundo. Para Otto Lara Rezende, "depois do Vinicius musical, foi o Vinicius cronista quem mais depressa chegou ao coração do grande público". Sua obra poética também teve e continua tendo muito sucesso, principalmente poemas como Soneto de Fidelidade. Ele produziu ainda poemas infantis, como os de A Arca de Noé.

31 de janeiro de 2011

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

28 de janeiro de 2011

O Inverno

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.


Eugénio de Andrade

19 de janeiro de 2011

"O Teatro é que me apaixonou. O ambiente; as frisas e camarotes; o dourado discreto do estuque e o rosa velho dos estofos. O ar que se respirava lá dentro era mágico: tinha outra constituição molecular, outro cheiro; entrava nos pulmões e desencadeava ondas de prazer que sobrelevavam a qualquer deleite masturbatório. À lenta diminuição das luzes da sala, anunciando o fim do intervalo e o início do acto seguinte, sobressaíam com subtil refulgência os contornos esculpidos das quatro ordens de camarotes: e os meus colegas de turma sentados nos seus lugares, agora silhuetas à meia-luz vislumbradas na frisa ao lado ou no camarote em frente, perdiam a boçalidade que eu tão bem lhes conhecia do recreio e das casas de banho do liceu, para me parecerem de repente transformados em príncipes e poeta.
Os feios tornavam-se bonitos; os bonitos, lindos de morrer."

Amar não acaba, Frederico Lourenço

18 de janeiro de 2011

Momentos...



"Numa noite normal com o passado largado da memória, um homem reencontra, no lugar a que chama casa, lembranças de um tempo que viveu.
Fragmentos de pura felicidade e instantes de sublime partilha, surgem como apontamentos de esperança de um presente que não voltará a ser o mesmo."

17 de janeiro de 2011

Amar não acaba

Amar não acaba.
É como se o mundo estivesse à minha espera.
E eu vou ao encontro do que me espera.


Clarice Lispector