27 de outubro de 2011

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois,onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são os mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não nada.

Faz canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu,e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faz de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém; que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és-
Um jardim mais ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...


Fernando Pessoa

«o poema inicia-se pela introdução de um símbolo: o jardim, que representa o "eu". Pessoa diz-nos que devemos cercar de grandes muros quem nos sonhamos. Ou seja, o nosso interior, o nosso sonho de nós mesmos nunca deve ser revelado aos outros. O exterior deve ser feito só de "flores (...) mais risonhas / Para que te conheçam só assim". Aqui Pessoa pretende dar a conhecer a sua opinião sobre como devemos revelar aos outros em nosso redor quem verdadeiramente somos.
A segunda estrofe reforça a entrada feita pela primeira estrofe: devemos tentar passar despercebidos no mundo exterior, para que ninguém ponha em causa os nossos sonhos. É por isso que ele diz: "Faz canteiros como os que outros têm, / Onde os olhares possam entrever / O teu jardim como lho vais mostrar". Já o interior, o "onde és teu", é uma zona que nunca deve ser revelada. Aí tudo pode crescer livremente - as flores que vêm do chão e mesmo as ervas naturais e selvagens.
A visão dupla da vida - interior e exterior - é adoptada totalmente na terceira estrofe: "Faz de ti um duplo guardado". Há uma aparência completa, um jardim perfeito em forma de máscara absurda, que serve ao homem na sua vida quotidiana; enquanto que no interior tudo é dominado pelo sonho, pelas flores selvagens e pela erva que cresce erraticamente.»

26 de outubro de 2011

«Para algumas pessoas eu não mostro nem metade do que realmente sou.
Não por medo, mas por não valer a pena mesmo.»


William Shakespeare

12 de outubro de 2011

Sou um Evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.


Fernando Pessoa

11 de outubro de 2011

Sísifo

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.


E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga

10 de outubro de 2011

“Na infância, o que se ouve ou o que se vê não sobe para o cérebro. Desce para o coração e aí fica escondido.”

(Humberto de Campos)

6 de outubro de 2011

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Drummond de Andrade

5 de outubro de 2011

4 de outubro de 2011

sábado: dia de feira

Bem, no passado sábado tive uma experiência nova: estive a vender numa feira.
Esta feira realizou-se na Sé do Porto e como podem verificar na foto, tinha um ambiente de festa e o calor ajudou a trazer muitas, mas mesmo muitas pessoas até lá. A maioria dos vendedores eram jovens e que estavam a vender coisas/roupas antigas, bijuteria, bolos, bebidas, brinquedos, um pouco de tudo. Houve também música ao vivo e muita animação que nos proporcionou muitas gargalhadas. Foi uma experiência muito engraçada e onde pude também ver os bastidores das feiras, um lado onde por vezes não compreendemos. Nesta iniciativa tivemos também opoertunidade de conhecer pessoas novas e muito simpáticas, algo que me deixa muito feliz!

28 de setembro de 2011

«O sonho é aquilo que fica, mesmo se já não estão as pessoas que o sonham.»

22 de setembro de 2011

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados

Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertold Brecht, in 'Do Pobre B.B.'

21 de setembro de 2011

o livro eleito

Hoje estive a escolher o livro que mais apreciei neste verão. E foi «A Cabana» de WM. Paul Young. O livro é muito simples mas o seu conteúdo é muito, muito bom.
E por aqui deixo um dos vários excertos que mais gostei:
"Há ocasiões em que optamos por acreditar em algo que normalmente seria considerado absolutamente irracional. Isso não significa que seja realmente irracional; mas, certamente, não é racional. Talvez exista a suprarracionalidade: a razão que transcede as definições normais dos factos ou a lógica baseada em dados. Algo que só faz sentido se conseguirmos vislumbrar um quadro mais amplo da realidade. Talvez seja aí que a fé se enquadre."

17 de setembro de 2011

"Recordar uma coisa deliciosa, é sempre delicioso - mesmo que já não a possuamos - por isto só: porque a possuímos um dia."
Mário de Sá-Carneiro

16 de setembro de 2011

uma notícia bastante agradável

«Há mais jovens a considerar que a leitura é importante para a sua vida pessoal. Em 2007, entre os que tinham 15 a 24 anos, 30,6% consideraram-na "muito importante". Em Março passado, neste grupo etário, já eram 52,4% os que afirmaram o mesmo. (...)
Os resultados do último Barómetro de Opinião Pública PNL, com um inquérito desenvolvido em Março passado junto de uma amostra de 1257 indivíduos, mostram que é no grupo dos 15 aos 24 anos que se registou um maior aumento entre aqueles que consideram a leitura "muito importante" para a sua vida pessoal. A avaliação externa do plano é feita por uma equipa do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, coordenada por António Firmino da Costa. O primeiro estudo de avaliação foi divulgado em 2008.»
in http://www.publico.pt/Educação/mais-de-metade-dos-jovens-portugueses-valorizam-a-leitura_1511882


Esta notícia baseada num inquérito deixou-me bastante contente. Acho que a cultura dos jovens não está assim tão má como às vezes pensamos. Não há muito tempo descobri que o simples acto de ler é demasiado importante para a nossa cultura e até mesmo a nossa vida. Sem dúvida, que só nos favorece na maneira de falar, de escrever, de pensar e de tudo o resto. Por isso é um hábito que temos de cultivar cada vez mais para nos tornamos pessoas mais sábias!

15 de setembro de 2011

os filmes deste verão:

Quem me conhece já sabe que adooooro ver filmes, então ir ao cinema é uma delícia... Mas dos muitos filmes que vi este verão, escolhi estes pois destacaram-se. O meu preferido destes cincos é sem dúvida o The Notebook ou Diário da nossa Paixão. A história é linda, romântica e faz pensar na vida, mas tenho de admitir que é um filme para ver a um sábado à tarde, tal como eu fiz :)


14 de setembro de 2011

(re)começar...

É no fim deste belo dia de verão (com muito calor, ufa!) que começo mais um post. Depois deste longo mês de férias onde muita coisa aconteceu, inclusive completei mais um ano de vida e deste período de descanso que soube tão bem, tenho mais um ano para percorrer e o último do secundário. Estou com a "bateria" bem cheia pois, tenho a certeza que vai ser cheio de trabalho mas isso não quer dizer que deixe de passar por aqui, pelo contrário vou tentar publicar ainda mais coisas. Espero que possas continuar sempre a espreitar este blog porque é mesmo feito para Ti.

20 de julho de 2011

De férias... mas volto brevemente! :')
E como é dia da amizade, deixo por aqui um pequeno texto sobre: «Um amigo, um abrigo, um ombro que preciso, um refúgio para onde me dirijo sem te perguntar porque preciso, talvez no choro, talvez no riso, estás ali sempre que preciso…»
José Guerra (2011)

7 de julho de 2011

entre a cidade sim e a cidade não

Sou um comboio rápido
que há muitos anos vai e vem
entre a cidade Sim
e a cidade Não.
Os meus nervos estão tensos
como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim.

Tudo está morto e assustado na cidade Não.
É como um embrulho feito de tristeza.
Dentro dela todas as coisas franzem a testa.
Há medo nos olhos de todos os retratos.
De manhã enceram com bílis o soalho.
Os sofás são de falsidade, as paredes de miséria.
Nunca te darão nessa cidade um bom conselho,
nem um ramo de flores, nem um simples aceno.
As máquinas de escrever batem, com cópia,
a resposta:
"Não-não-não... não-não-não... não-não-não..."
E quando enfim se apagam as luzes
os fantasmas iniciam o seu lúgubre bailado.
Nunca, ainda que rebentes, arranjarás bilhete
para fugir da negra cidade. Não.

Ah, mas a vida na cidade Sim é um canto de ave.
Não tem paredes a cidade, é como um ninho.
As estrelas dizem que as acolhas nos teus braços.
E sem vergonha seus lábios pedem teus lábios,
num brando murmúrio: "São tudo tolices..."
A flor provocante implora que a cortes,
os rebanhos oferecem o leite com seus mugidos,
ninguém tem ponta de medo.
E aonde queiras ir te levam num instante comboios,
barcos, aviões,
e com um rumor antigo vai a água murmurando:
"Sim-sim-sim... sim-sim-sim... sim-sim-sim..."
Mas às vezes é certo que aborrece
ser-me dado, afinal, tudo sem esforço
nesta cidade Sim, deslumbrante de cor.

É melhor ir e vir até ao fim da minha vida
entre a cidade Sim
e a cidade Não!
É melhor ter os nervos tensos como cabos
entre a cidade Não
e a cidade Sim!

ievgueni ievtuchenko
dom quixote 1968

6 de julho de 2011

Retrato de Mónica

«Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.»


Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

29 de junho de 2011

Concordo, mas infelizmente...

«O acidente que provocou a morte do cantor Angélico Vieira tem um forte impacto imediato, sobretudo entre os mais jovens, mas não deverá ter um efeito pedagógico duradouro para a questão do cinto de segurança, defende um especialista.
Rui Carreteiro, psicólogo e coordenador de uma pós-graduação em Psicologia do Tráfego, acredita que o acidente, por ter envolvido uma jovem figura pública popular entre os mais jovens, vai salientar a importância do uso do cinto de segurança.
"Mas regra geral, neste tipo de situações, o impacto é muito forte, mas pouco duradouro. Terá um forte impacto imediato, não só nos fãs como na população em geral. Mas infelizmente o efeito pedagógico não será o desejado a médio longo prazo", afirma o especialista em declarações à agência Lusa.
Para Rui Carreteiro, nos próximos dias as pessoas terão mais cuidado e atenção ao uso do cinto, mas essa consequência tenderá a desaparecer com o tempo, ao ritmo da memória, que é curta.
"Quando há uma multa por excesso de velocidade, nos dias seguintes é-se muito cumpridor, mas passado algum tempo tudo volta o mesmo", compara, acrescentando que o ser humano é "um eterno tentador de ultrapassar os limites que são impostos pela sociedade".
(...)»

daqui:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Media/Interior.aspx?content_id=1892161&page=1

17 de junho de 2011

estudar, estudar, estudar...



Exames, a minha vida agora resume-se a estudar números e letras e é por esse motivo que não tenho publicado muito. Peço desculpa a quem me visita regularmente mas o tempo é pouco para passar por aqui.
Espero voltar o mais breve possível e continuar a publicar no para Ti.
Beijinhos :')

13 de junho de 2011

123º aniversário







«O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.»







Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.
É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo".

Por ter crescido na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu a língua inglesa. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa dedicou-se também a traduções desse idioma.
Ao longo da vida trabalhou em várias firmas como correspondente comercial. Foi também empresário, editor, crítico literário, ativista político, tradutor, jornalista, inventor, publicitário e publicista, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente".
Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos 47 anos, na cidade onde nasceu. Sua última frase foi escrita em Inglês: "I know not what tomorrow will bring… " ("Não sei o que o amanhã trará").


in http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

8 de junho de 2011

A palavra sobre a palavra

«Recebe-nos no seu gabinete, na Faculdade de Letras. Uma sala pequena, envelhecida, com muitos livros, muitos papéis - talvez por isso um espaço tão acolhedor. O cabelo que lhe emoldura o rosto está impecavelmente penteado. A blusa de linho, branca, bordada, acentua-lhe o ar distinto, o porte de gestos delicados.
(...)

Com tantas andanças pelo mundo, como é que o mundo vê a literatura portuguesa?
Com muito interesse, muita curiosidade! É pena que não haja mais e melhores traduções.
Era algo em que se devia investir a sério. Paulo Quintela era um grande tradutor, traduzia do Alemão, do Inglês e de outras línguas, mas sobretudo dessas. Traduzia excelentemente e dedicou toda a sua vida a essa tarefa, por vezes tendo sido criticado por isso. Diziam por aí que ele não tinha uma obra científica porque não escrevia livros, fazia apenas traduções e depois escrevia pequenas introduções para as traduções. Eu acho que ele fez um trabalho notável, pelo qual tenho um enorme respeito e admiração. Traduzir é muito difícil. Eu também já traduzi, ainda traduzo, e sei que é muito difícil. O interesse pela literatura portuguesa no estrangeiro é muito grande. E desde que o Saramago ganhou o Nobel, mais ainda.

E a nível da poesia, como estamos?
A poesia sempre foi algo que, de alguma forma, nos corre nas veias. Várias pessoas fizeram comentários sobre o facto de sermos um país de poetas. Acho que estamos bem representados. A Graça Capinha está a dirigir um projecto no Centro de Estudos Sociais (CES) - onde ambas somos investigadoras - sobre poesia. Ela chama-lhe Poéticas de Resistência. Esse projecto obriga-a a ir pelo país ver o que é que se publica que nunca chega ao Expresso nem ao Público. E ela diz que se faz imensa coisa muitíssimo boa que não chega aos meios de comunicação.
Há toda uma obra que fica completamente ignorada. Não tenho dúvidas: a literatura portuguesa está mesmo muito bem e recomenda-se.

Quem são os seus autores preferidos?
O Saramago é um deles. A Lídia Jorge também. Maria Velho da Costa. Ana Luísa Amaral.
Gosto muito do António Ramos Rosa e escrevi muito sobre ele. Mas o poeta vivo que mais admiro é o Alberto Pimenta. Muitas pessoas nem sequer ouviram falar dele. Ninguém fala muito nele porque ele é muito rebarbativo, mas é um grande poeta, que percebe que não se pode fazer igual ao que já foi feito. Depois há outros... A Fiama. Sophia, Eugénio de Andrade. O Herberto Hélder é outro grande poeta. Mas quando estes poetas começaram a publicar a sua “obra toda” ou “obra completa” o Alberto Pimenta publica um livro que intitula “Obra Quase Incompleta”! E essa obra é notável porque ele é capaz de publicar um poema a que, passados uns anos, caiem letras e fica com outro aspecto. É quase explicitamente uma reflexão sobre o problema da língua. Porque a língua é que é complicada. A língua fala-nos, não somos nós que falamos a língua. Eu tenho consciência de que a língua me está a falar neste momento, não sou eu que a falo.

O poeta é um fingidor?
Dizia o Pessoa, sim. No sentido do fingir, do fazer-de-conta da ficção - porque ficção e fingir são palavras cognatas – é verdade. Mas também temos de rever a questão da autenticidade.
O que Fernando Pessoa põe nesse poema é a questão da autenticidade: O fingimento é que é a verdadeira autenticidade. É o que diz verdadeiramente o mundo. Porque essa poesia de subjectividade de dizer o “eu” não é o mais importante. Aliás, Nietzsche dizia exactamente a mesma coisa: o que interessa é dizer o mundo, não o “eu”.

O poético também é político?
Sem dúvida. Tudo é. E mesmo aquele poeta que se diz apolítico tem a política do apoliticismo. Não há como escapar à nossa condição de seres políticos.

Mas a escrita foi uma arma de Abril.
Sem dúvida. Mas aquela que conseguiu contornar a censura, não aquela que ficou na gaveta.

Olhando para o Portugal de hoje acha que temos o país pelo qual Abril lutou?
Não, não acho.

O que é falta?
Falta mais justiça social. Falta... Eu até diria democracia. E há corrupção a mais. O 25 de Abril trouxe a democracia, sem dúvida; prometeu maior justiça social; e conseguiu algumas coisas, não vou dizer que não. Claro que sim. Agora, aquilo que muitos de nós pensávamos que ia ser o Portugal depois de Abril não se concretizou, pelo menos não na sua plenitude.

As mulheres ainda precisam que lutem por elas?
Elas é que precisam de lutar por elas. E cada vez mais creio que as mulheres estão a assumir essa luta de se afirmarem, de serem reconhecidas, de avançarem para posições de poder.
As mulheres ainda têm muitos e bons motivos para lutar. É preciso entendermos a nossa sociedade, a nossa cultura, as teorias pelas quais nos regemos. (...) É preciso continuar a lutar pelos direitos das mulheres, tal como é preciso continuar a lutar pelos direitos dos negros e das minorias. Em qualquer parte do mundo. Porque ainda há muito racismo e discriminação, por todo o lado.

As mulheres escrevem de forma diferente dos homens?
Já escrevi sobre isso. Desde que há consciência da escrita e do corpo que há produção escrita por mulheres que deliberadamente assumem que escrevem de forma diferente. Eu acho que não, acho que a arte e a literatura não são coisas naturais. Não há nada mais artificial que a poesia, nada mais artificial que a literatura, e portanto não é natural que se notem diferenças de uma escrita para a outra. A Irene Lisboa, uma grande poeta do modernismo português, dizia que distinguir a arte masculina da arte feminina é muito difícil. E é.
(...)


Para que é que serve a literatura e a poesia?
Para nada. (Silêncio) Para aprendermos a interrogar. Mas a poesia não diz nada. A poesia diz-se, não diz coisas. Diz-se. O mais importante da poesia e da arte em geral é, justamente, a gratuitidade. O gratuito é que faz de nós humanos. Aquilo que não é contabilizável, que não é objecto de imposto. Como diz o Álvaro de Campos: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?” [não me lembro agora bem do resto, mas a ideia é esta] queriam-me um homem normal? Não! Eu sou poeta!”. Mas os poetas são pessoas como as outras (sorriso).

São? Há aquela ideia de que são pessoas especiais...
Não. Isso é um conceito romântico e elitista que se mantém. É a ideia do génio. Mas porquê os poetas? Em qualquer outra área de actividade encontramos seres excepcionais. Não quer dizer que não existam poetas excepcionais. Mas a maior parte deles não o é. Como em tudo.
(...)

É uma mulher realizada?
Sempre a realizar. Sempre em realização.

O que é que ainda lhe falta fazer?
Morrer. Mas lá chegará (sorriso)...
(...)

É difícil vingar fora de Lisboa?
Só porque os jornais não nos ligam muito. O colóquio de estudos americanos que nós tivemos aqui intitulado “America where?”, um colóquio internacional, com especialistas americanos muitos bons, de topo; ex-presidentes da ASA – uma delas acaba de ser eleita presidente da associação. Da Irlanda, da Holanda, de Espanha, Inglaterra, Alemanha. Um naipe de especialistas dos melhores que há. Quem não veio, vergonhosamente, foram os nossos colegas americanistas de Lisboa e do Porto. Mas quem é que falou do colóquio? Por acaso, o António Guerreiro publicou o programa na Actual. Depois telefonou-me a dizer que não podia vir cobrir o colóquio porque o jornal não lhe dava espaço nenhum para este tema. Se fosse em Lisboa, se calhar as coisas seriam diferentes.

A poesia tem um papel social?
Claro. Aliás, tudo é social. Precisamente porque não tem de estar investida em interesses, a poesia tem uma função social importantíssima.

Num mundo que, como diz, “se desmorona”, mais do que mentir a poesia deve falar a verdade?
(Silêncio) A verdadeira poesia – e o meu mestre Bloom dizia “strong”, ou seja, “forte” – a grande poesia, “forte”, não mente. Nunca mente. Finge, mas não mente. São coisas diferentes.
Se quando fala em verdade me fala de poesia-panfleto, isso não! Poesia não é panfleto.
Se é, deixa de ser poesia. Agora, a poesia tem muitas maneiras de dizer as coisas. O Robert Duncan, que era ferozmente contra a Guerra do Vietnam, escreveu vários poemas em que se posicionava contra a guerra, mas fê-lo de forma a que a verdade dele estivesse lá sem cair no panfletário.

Prefere poesia ou literatura?
Fernando Pessoa e Sá Carneiro faziam essa distinção e diziam que só os lepidópteros apreciavam a literatura, os outros preferiam poesia. A poesia é a arte suprema da linguagem. E, nesse sentido, acho que prefiro a poesia – sem a distinguir da literatura, nem da ficção, nem do drama.

A poesia é esquecimento ou memória?
As duas coisas. Há um poema de Hart Crane, outro dos meus poetas preferidos, que diz “I can remember much forgetfulness”. É muito bonito. Nós agora temos um projecto no CES, que esperamos que venha a ser aprovado, sobre o silêncio e os silenciamentos. A minha parte vai ser justamente sobre a poesia e os silêncios e os silenciamentos da poesia. E os esquecimentos, porque o esquecimento também é um silêncio.

O belo ou o feio?
As duas coisas. Aliás, uma não existe sem a outra. É o chamado sublime.

Alberto Caeiro, Ricardo Reis ou Álvaro de Campos?
Fernando Pessoa.

Qual é a sua palavra preferida?
A minha palavra preferida? (Silêncio) Que linda pergunta! É “poesia”.

Diga-me o título de um livro que a fez feliz e de um livro que a fez chorar.
Há um livro que ainda está muito presente em mim. É um belíssimo romance. “Myra”, de Maria Velho da Costa. Fez-me chorar e também me fez feliz porque é uma bela obra.

A Língua Portuguesa é a Língua mais bonita do mundo?
Não.

Qual é?
Não sei... »

mais aqui: http://www.uc.pt/rualarga/anteriores/26/26_17
* Maria Irene Ramalho é licenciada pela Universidade de Coimbra e doutorada pela Universidade de Yale. É professora de Estudos Ingleses e Americanos da Universidade de Coimbra e International Affiliate do Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Wisconsin-Madison. Foi, em 2008, galardoada nos Estados Unidos com o Prémio Mary C. Turpie atribuído pela mais importante associação de estudos americanos (American Studies Association), que pela primeira vez é atribuído a alguém de fora do país.

5 de junho de 2011

A vida humana

«Se te dizem que faças o que quiseres, a primeira coisa que parece aconselhável é que penses com tempo e a fundo o que é aquilo que queres. Apetecem-te com certeza muitas coisas, amiúde contraditórias, como acontece com toda a gente: queres ter uma moto, mas não queres partir a cabeça no asfalto, queres ter amigos, mas sem perderes a tua independência, queres ter dinheiro, mas não queres sujeitar-te ao próximo para o conseguires, queres saber coisas e por isso compreendes que é preciso estudar, mas também queres divertir-te, queres que eu não te chateie e te deixe viver à tua maneira, mas também que esteja presente para te ajudar quando necessitas disso, etc. Numa palavra, se tivesses que resumir tudo isto e pôr sinceramente em palavras o teu desejo global e mais profundo, dir-me-ias: «Olha, pai, o que eu quero é ter uma vida boa.» Bravo! O prémio para este senhor! Era isso mesmo o meu conselho: quando te disse «faz o que quiseres», o que, no fundo, pretendia recomendar-te é que tivesses o atrevimento de teres uma vida boa. (…)
Queres ter uma vida boa: magnífico. Mas também queres que essa vida boa não seja a vida boa de uma couve-flor ou de um escaravelho, com todo o respeito que tenho por ambas as espécies, mas uma vida humana boa. É o que te interessa, creio eu. E tenho a certeza de que não renunciarias a isso por nada deste mundo. Ser-se humano, já o vimos antes, consiste principalmente em ter relações com outros seres humanos. Se pudesses ter muito, muito dinheiro, uma casa mais sumptuosa do que um palácio das mil e uma noites, as melhores roupas, os alimentos mais requintados (…), as aparelhagens mais perfeitas, etc., mas tudo isso à custa de não voltares a ver nem a ser visto – nunca – por um outro ser humano, ficarias satisfeito? Quanto tempo poderias viver assim sem te tornares louco? Não será a maior das loucuras querermos as coisas à custa da relação com as pessoas? Mas se justamente a graça de todas as coisas de que falámos assenta no facto de te permitirem – ou parecerem permitir – relacionares-te mais favoravelmente com os outros! (…) Muito poucas coisas conservam a sua graça na solidão; e se a solidão for completa e definitiva, todas as coisas se volvem irremediavelmente amargas. A vida humana boa é vida boa entre seres humanos ou, caso contrário, pode ser que seja ainda vida, mas não será nem boa nem humana

Fernando Savater, Ética para um Jovem,
7.ª ed., trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Presença, 2000